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ANJL questiona pesquisa da CNC que culpa bets por endividamento dos brasileiros: problema é ‘histórico e estrutural’

  • Última modificação do post:28 de abril de 2026
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Entidade ressalta que fenômeno no país é mais amplo e não pode ser associado a uma única variável

A Associação Nacional de Jogos e Loterias contestou publicamente os resultados de um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo que atribui às apostas online um impacto significativo no endividamento das famílias brasileiras e no desempenho do varejo.

Em nota oficial, a entidade afirma que “os números apresentados pela CNC contrariam os dados oficiais do governo e do setor” e critica a metodologia utilizada. Segundo a associação, “recortes amostrais não podem se sobrepor às bases públicas disponíveis nem sugerir uma relação causal direta entre apostas online e inadimplência do cliente”.

A ANJL também ressalta que o fenômeno do endividamento no Brasil é mais amplo e não pode ser associado a uma única variável. Para a entidade, “o endividamento no país é um problema histórico e estrutural, associado principalmente ao alto custo do crédito, aos juros elevados e à pressão do custo de vida sobre a renda”.

Perfil do apostador 

Para sustentar sua posição, a associação cita dados do setor que indicam um comportamento heterogêneo entre os usuários de apostas. De acordo com números compilados pela Pay4Fun, o Brasil registrou cerca de 28 milhões de apostadores em 2025.

Segundo a ANJL, “53,3% tiveram gastos de até R$ 50, enquanto 19,5% gastaram acima de R$ 1 mil”, o que, na avaliação da entidade, “evidencia um comportamento heterogêneo e incompatível com generalizações sobre impacto uniforme no orçamento das famílias”.

A nota também menciona estudo da LCA Consultoria Econômica, segundo o qual os gastos com apostas representam cerca de 0,46% do consumo das famílias brasileiras, com gasto líquido médio mensal de R$ 122 por apostador — equivalente a aproximadamente 3,3% da renda desse público.

Regulação 

Outro ponto destacado pela associação é o papel da regulamentação no setor. A ANJL afirma que o mercado regulado opera sob supervisão do Ministério da Fazenda, com regras de identificação de usuários, prevenção à lavagem de dinheiro, proteção ao consumidor e promoção do jogo responsável”.

A entidade também alerta para os efeitos de medidas que possam enfraquecer o ambiente regulado. Segundo a nota, “enfraquecer o ambiente regulado beneficia apenas operadores clandestinos, que atuam sem fiscalização, sem arrecadação tributária e sem garantias aos usuários”.

Ao final, a associação reforça sua disposição em contribuir com o debate público. “O setor permanece à disposição para contribuir com um debate público sério, técnico e baseado em evidências”.

O que diz a pesquisa da CNC

O posicionamento da ANJL ocorre após a divulgação de um estudo da CNC que aponta impactos causados pelas apostas online sobre o consumo e o endividamento no país.

Segundo o levantamento, o crescimento das plataformas de apostas teria retirado R$ 143,8 bilhões do comércio brasileiro nos últimos dois anos, valor equivalente ao faturamento do varejo em dois períodos de Natal.

De acordo com o economista Fabio Bentes, responsável pelo estudo, cada R$ 1 bilhão direcionado às apostas estaria associado a uma redução de 0,7% no faturamento do varejo.

O estudo também indica que o gasto mensal dos brasileiros com apostas aumentou de R$ 4 bilhões, em janeiro de 2023, para R$ 29 bilhões em dezembro de 2025.

Impacto 

Além dos efeitos sobre o comércio, a CNC aponta uma relação entre o avanço das apostas e o aumento da inadimplência.

Segundo os cálculos da entidade, cerca de 269 mil famílias passaram a integrar o grupo de inadimplentes em função de gastos com apostas.

A metodologia do estudo buscou isolar o impacto das bets, desconsiderando fatores macroeconômicos como variações de renda, desemprego e juros.

Os dados indicam que o impacto seria mais relevante entre famílias com renda de até cinco salários mínimos, enquanto nas faixas de renda mais altas houve redução das dívidas formais, mas aumento de atrasos em pagamentos, associado ao redirecionamento de recursos para apostas.

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