Presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados afirmou que atividade retira recursos da economia
O setor brasileiro de produção de calçados avalia que enfrenta hoje duas frentes de pressão que podem comprometer tanto o mercado interno quanto o desempenho das exportações. A avaliação foi feita por Haroldo Ferreira, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), durante a BFSHOW — principal feira calçadista da América Latina. As informações foram divulgadas pelo portal O Tempo.
De acordo com Ferreira, a primeira ameaça é externa: o chamado “tarifaço” aplicado pelo governo de Donald Trump contra produtos importados. Os Estados Unidos são os maiores compradores de calçados brasileiros, e essa nova tarifação pode reduzir de forma expressiva a competitividade do produto nacional. Historicamente, cerca de 15% da produção brasileira é vendida ao mercado norte-americano, mas a Abicalçados projeta que esse índice pode cair para 9% em 2026 caso o tema não seja negociado até o fim do ano.
O impacto já é percebido, segundo ele, principalmente nas empresas localizadas em São Paulo e no Rio Grande do Sul, embora a pressão se espalhe por toda a cadeia produtiva. Em resposta, indústrias têm concedido descontos e reduzido margens para tentar manter espaço nos Estados Unidos, o que compromete a rentabilidade do setor. Como alternativa para “estancar a sangria”, Ferreira afirmou que o setor tem reforçado negociações com países vizinhos. Nos últimos dez meses, as exportações cresceram 46% para o Equador e 17,4% para o Paraguai, sinalizando um esforço de diversificação de mercados.
Bets
A segunda preocupação levantada pelo presidente da Abicalçados é interna e está ligada ao aumento das apostas online. Ferreira afirma que o consumo de bens essenciais, incluindo roupas e calçados, tem sido afetado pelo crescimento do volume apostado no mercado das bets. Segundo ele, a atividade retira recursos da economia real e impacta diretamente o varejo.
“Internamente, percebemos que as apostas online têm retirado dinheiro do consumo de roupas, calçados e alimentos. Defendemos uma tributação sobre esses jogos para que haja algum retorno para a economia”, afirmou.
Além das projeções e alertas, Ferreira divulgou números atualizados do setor entre janeiro e setembro de 2025. O Brasil possui hoje 5,3 mil empresas calçadistas. No período analisado, a produção totalizou 684 milhões de pares, uma queda de 1,6% em relação a 2024. O consumo interno registrou o mesmo percentual de retração, com 640,8 milhões de pares. As exportações cresceram 7,1% em volume, alcançando 76,7 milhões de pares e movimentando US$ 736,4 milhões — um aumento de apenas 0,2% em receita. O setor hoje emprega 295,9 mil trabalhadores diretamente, com leve alta de 0,2% frente ao ano anterior.