Levantamento mostra que R$ 27,8 milhões foram destinados à prevenção e mitigação dos danos do jogo no primeiro semestre de 2026
A destinação dos recursos arrecadados com o mercado regulado de apostas de quota fixa voltou a colocar em evidência a diferença entre as áreas beneficiadas pelo setor. No primeiro semestre de 2026, R$ 27,8 milhões foram destinados à saúde para prevenção, controle e mitigação dos danos provocados pela prática de jogos, enquanto o turismo recebeu R$ 565,3 milhões.
Na comparação direta, a saúde recebeu aproximadamente 95% a menos que o turismo. Visto pelo sentido inverso, o montante destinado ao turismo foi 20,3 vezes maior.
Os números fazem parte de relatório elaborado pelo VerificaBet a partir de dados do Tesouro Gerencial, da Receita Federal e da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF). O estudo analisou a arrecadação e a distribuição dos recursos provenientes das apostas de quota fixa entre janeiro e junho deste ano.
Segundo o levantamento, o setor entregou R$ 2,48 bilhões à União no período, conforme a série completa da Receita Federal. Para analisar especificamente a repartição, entretanto, o estudo utiliza uma base de R$ 2,36 bilhões do Tesouro Gerencial, que ainda não havia fechado integralmente os dados de junho na data da extração. Por isso, as duas bases são apresentadas separadamente e não são somadas.
Sumário
- 1 Turismo lidera destinação dos recursos
- 2 Saúde fica com 1,18% dos recursos
- 3 Embratur recebeu 5,5 vezes o valor destinado à saúde
- 4 Relatório identifica R$ 514,1 milhões em recursos livres
- 5 Fundo da Polícia Federal amplia participação no rateio
- 6 Mais de 1,1 milhão de pessoas solicitaram autoexclusão
- 7 Estudo aponta divergências entre documentos oficiais
Turismo lidera destinação dos recursos
Considerando a base de R$ 2,36 bilhões utilizada para analisar a repartição, o turismo aparece como principal destino dos recursos, com R$ 565,3 milhões. Na sequência estão R$ 514,1 milhões classificados como recursos livres da União, R$ 427,4 milhões para esporte e R$ 341 milhões para segurança pública.
A seguridade social recebeu R$ 274,6 milhões, enquanto a educação ficou com R$ 184,2 milhões. A rubrica especificamente destinada à saúde para os danos associados ao jogo recebeu R$ 27,8 milhões.
O ranking apresentado pelo estudo ficou assim:
- Turismo: R$ 565,3 milhões
- Caixa livre da União (DRU): R$ 514,1 milhões
- Esporte: R$ 427,4 milhões
- Segurança pública: R$ 341 milhões
- Seguridade social: R$ 274,6 milhões
- Educação: R$ 184,2 milhões
- Saúde — dano do jogo: R$ 27,8 milhões
- Exército — fronteira: R$ 18,4 milhões
- Desenvolvimento industrial: R$ 10,9 milhões
Em termos diários, o relatório calcula uma média de aproximadamente R$ 153,5 mil para a rubrica de saúde ligada aos danos do jogo, ante cerca de R$ 3,1 milhões para o turismo.
Saúde fica com 1,18% dos recursos
O estudo chama atenção especialmente para o percentual reservado à área de saúde diretamente relacionada aos efeitos das apostas. Os R$ 27,8 milhões representam 1,18% dos R$ 2,36 bilhões analisados na base de repartição do Tesouro.
O percentual praticamente não mudou desde o início da operação do mercado regulado. Entre fevereiro e dezembro de 2025, foram destinados R$ 48,9 milhões à saúde, equivalentes a 1,19% dos R$ 4,10 bilhões considerados naquele período.
Somando fevereiro de 2025 a junho de 2026, o relatório contabiliza R$ 76,6 milhões para a saúde, novamente equivalentes a aproximadamente 1,19% da arrecadação considerada nessa base.
O levantamento ressalta, porém, que esses dados não permitem concluir se o valor destinado à saúde é suficiente ou insuficiente. Para fazer essa avaliação seriam necessárias informações sobre custos de tratamento, cobertura da rede e prevalência de problemas relacionados ao jogo, dados que não integram a pesquisa.
Embratur recebeu 5,5 vezes o valor destinado à saúde
Dentro dos recursos destinados ao turismo, outro dado destacado pelo levantamento é o montante recebido pela Embratur. A agência responsável pela promoção turística brasileira no exterior recebeu R$ 152,7 milhões no período.
O valor, isoladamente, corresponde a cerca de 5,5 vezes os R$ 27,8 milhões destinados à saúde para prevenção e mitigação dos danos decorrentes dos jogos.
O relatório também aborda os R$ 274,6 milhões classificados como seguridade social. Embora a saúde faça constitucionalmente parte da seguridade, o estudo afirma que essa verba aparece no extrato como recurso livre, tendo como órgão o Ministério da Fazenda e como unidade orçamentária a Receita do Tesouro da União.
Segundo o levantamento, a única linha identificada como destinada diretamente ao Fundo Nacional de Saúde é justamente a de R$ 27,8 milhões. Mesmo em um cenário no qual os R$ 274,6 milhões fossem somados à rubrica específica da saúde, o resultado de R$ 302,4 milhões continuaria abaixo dos valores destinados ao turismo.
Relatório identifica R$ 514,1 milhões em recursos livres
Outro ponto levantado pelo estudo diz respeito aos R$ 514,1 milhões classificados como recursos livres da União, por meio da desvinculação de receitas.
O relatório afirma que essa rubrica aparece no extrato do Tesouro Gerencial, mas não integra a divisão em nove destinos apresentada na comunicação pública analisada da SPA. Desde o início do regime, o montante registrado nessa categoria chegaria a R$ 1,39 bilhão.
O próprio levantamento ressalta que a desvinculação de receitas é um mecanismo constitucional e legítimo e que sua identificação não representa indício de irregularidade. A questão apontada é a diferença entre a forma de apresentação pública da destinação e os registros encontrados no Tesouro Gerencial.
Fundo da Polícia Federal amplia participação no rateio
A análise também encontrou uma alteração relevante na distribuição dos recursos a partir de maio. Segundo os cálculos do VerificaBet, a participação destinada ao Funapol, fundo da Polícia Federal, passou de 0,46% para 7,33% da cesta, crescimento de 15,8 vezes na participação percentual.
Ao mesmo tempo, as demais rubricas vinculadas analisadas tiveram redução proporcional de aproximadamente 10,7%. O Ministério do Turismo, por exemplo, passou de 20,80% para 18,58%, enquanto o Ministério do Esporte caiu de 20,61% para 18,41%.
Em valores, o Funapol alcançou R$ 59,1 milhões no primeiro semestre de 2026, contra R$ 16,5 milhões durante todo o ano de 2025. O estudo afirma que os documentos obtidos não explicam essa mudança no rateio.
Mais de 1,1 milhão de pessoas solicitaram autoexclusão
O relatório cruza o cenário da arrecadação com outro dado relacionado ao mercado regulado: a utilização da plataforma centralizada de autoexclusão.
Até 5 de agosto de 2026, 1.119.569 pessoas haviam solicitado bloqueio das plataformas de apostas. Desse total, 400.992, ou 35,82%, indicaram perda de controle sobre o jogo, classificada como motivo relacionado à saúde mental.
Somente no primeiro semestre foram registrados 764.632 pedidos de autoexclusão. O estudo calcula que, ao dividir os R$ 27,8 milhões destinados à saúde pelo número de solicitações de bloqueio realizadas no mesmo semestre, o resultado equivale a R$ 36,34 por pessoa que pediu autoexclusão.
Entre todos os pedidos contabilizados até agosto, 20,79% foram motivados pelo desejo de impedir o uso dos dados pessoais em plataformas de apostas; 15,26% por decisão voluntária; 14,96% não informaram motivo; 11,85% citaram dificuldades financeiras; e 1,32% disseram ter recebido recomendação de um profissional de saúde.
Estudo aponta divergências entre documentos oficiais
Além de analisar a distribuição dos recursos, o VerificaBet identificou diferenças entre números apresentados em documentos oficiais.
Um dos casos envolve a taxa de fiscalização do primeiro trimestre de 2026. Segundo o relatório, uma apresentação da secretaria aponta R$ 76,7 milhões, enquanto a planilha oficial do sistema de recolhimento registra R$ 27,6 milhões, diferença de aproximadamente 2,8 vezes.
O estudo também aponta diferenças entre o valor de destinação informado para o primeiro trimestre e aquele encontrado nos registros do Tesouro.
O levantamento, entretanto, não atribui irregularidade a nenhum órgão. As diferenças são apresentadas como questões ainda sem resposta, uma vez que os documentos analisados não forneceriam a base de cálculo necessária para reconciliar os números.
A pesquisa foi construída a partir de documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, em pedido respondido pela Secretaria de Prêmios e Apostas e pela Receita Federal. O levantamento utiliza ainda dados do Tesouro Gerencial e informações de autoexclusão obtidas em resposta separada.