Campanha foi lançada pelo grupo 342 Artes, e contou com artistas como Chico Buarque e Gilberto Gil
Uma mobilização que reuniu alguns dos principais nomes da música, do teatro, da televisão e do audiovisual brasileiro colocou o debate sobre apostas online no centro das discussões culturais do país nesta semana. Batizada de “Block no Tigrinho”, a campanha foi lançada pelo grupo 342 Artes e tem como objetivo defender medidas de combate ao que seus organizadores classificam como “bet predatório” no Brasil.
Nos bastidores da iniciativa, a articulação começou a partir de contatos realizados diretamente por Paula Lavigne. Segundo a produtora cultural e empresária, a estratégia foi baseada em conversas individuais com artistas de diferentes gerações e segmentos da cultura brasileira.
O resultado foi a participação de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Djavan, Emicida e Sandra Sá, além das atrizes Marieta Severo, Julia Lemmertz, Letícia Sabatella, Cláudia Abreu, Camila Pitanga, Luisa Arraes, Malu Galli e Alice Carvalho. O vídeo da campanha foi divulgado na última terça-feira (2) pelo 342 Artes.
Lavigne afirmou que a adesão de artistas com trajetórias consolidadas contribui para ampliar o alcance da discussão.
“Existe algo poderoso quando grandes nomes da cultura resolvem se posicionar sobre um tema. É natural que, ao ver artistas que construíram sua trajetória ao longo de décadas aderindo a uma campanha como essa, outros artistas, comunicadores e influencers se sintam incentivados a participar também”, afirmou.
A criadora do movimento também relacionou a campanha ao atual cenário político e social do país.
“Houve uma sintonia, porque estamos falando de uma questão urgente e cada vez mais presente na vida das pessoas. Praticamente todo mundo conhecia alguém arruinando a vida com apostas on-line”, declarou.
Segundo os organizadores, a campanha busca ampliar a conscientização sobre possíveis impactos das apostas online, especialmente entre jovens, famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.
O movimento cita dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), segundo os quais cerca de 1,8 milhão de brasileiros teriam se endividado em razão das apostas em 2024. Desse total, 1,4 milhão apresentaria transtornos associados ao hábito de apostar.
Patrocínios
A mobilização também trouxe à tona a crescente presença das casas de apostas no financiamento de eventos culturais e musicais.
Paula Lavigne afirmou que diversos artistas passaram a conviver com um cenário em que festivais, casas de shows e grandes eventos contam com patrocínio de empresas do setor.
“Caetano tem shows marcados em festivais que tem patrocínio de bet. Os shows foram fechados há tempos, em um momento em que essa crise não existia. Recentemente, avisei aos promotores dos festivais que faria a campanha e eles não quiseram cancelar. Eu e Caetano podemos viver sem fazer shows patrocinados por bets. Mas isso não me parece justo com outros artistas que não tem condições de fazer essa escolha”, disse.
Influenciadores
Além dos artistas, a campanha buscou envolver criadores de conteúdo digital. A coordenação dessa frente ficou sob responsabilidade da especialista em marketing digital Bárbara Bono, que realizou a curadoria dos influenciadores convidados a participar da ação.
Segundo ela, a presença desse grupo foi considerada estratégica devido ao papel crescente dos influenciadores na divulgação de plataformas de apostas.
“Quem convida para jogar (apostas em bets) também mudou. O influencer está ao alcance da sua mão, fala com milhões, de um jeito íntimo, no meio da vida real dele. Quem comunica empresta a própria voz e, com ela, a confiança de quem está do outro lado da tela, muitas vezes alguém apostando o que era pra ser comida e aluguel”, afirmou.
Ela acrescentou:
“A bet vai existir de qualquer jeito. Mas a gente decide, todo dia, como empresta a própria voz para ela“, disse.
Pressão por mudanças regulatórias
De acordo com os organizadores, o objetivo da campanha vai além da conscientização pública e busca ampliar o debate sobre regras para publicidade e operação das plataformas de apostas.
“A primeira mudança é cultural. O objetivo principal da campanha é criar pressão por regulações mais rígidas da publicidade e da atuação das bets através, por exemplo, de propostas como o PL Brasil Contra Bets, que foi protocolado com texto idêntico na Câmara e no Senado. Será que o Congresso vai nos ouvir?”, questionou Paula Lavigne.
