Pedidos de autoexclusão cresceram 588% durante o Mundial; quase 18 mil brasileiros solicitaram saída
A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, disponibilizada pelo Governo Federal para usuários que desejam restringir o acesso às plataformas de apostas autorizadas, registrou um aumento expressivo na procura durante a Copa do Mundo de 2026. Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) obtidos pela BBC News Brasil, a média diária de solicitações chegou a 17.866 pedidos, um crescimento de 588% em comparação com período semelhante anterior ao torneio.
Entre 15 e 28 de junho, foram contabilizados 250.129 novos pedidos de autoexclusão ou solicitações de prorrogação do bloqueio. No intervalo utilizado para comparação, entre 11 e 25 de maio, haviam sido registrados 38.907 pedidos, média de 2.594 solicitações por dia.
Mesmo considerando que o período analisado durante a Copa foi um dia menor, houve 211.222 solicitações a mais em relação ao intervalo anterior. Os números consolidados de toda a competição ainda estavam sendo finalizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas.
Sumário
Maioria optou pelo bloqueio sem prazo definido
Durante o período analisado da Copa do Mundo, 63,53% das solicitações de autoexclusão foram feitas por prazo indeterminado. Antes do torneio, essa modalidade representava 62,13% dos pedidos.
Também houve mudança nos principais motivos apresentados pelos usuários.
Durante a Copa, 29,5% das solicitações tiveram como justificativa impedir o uso dos dados pessoais em plataformas de apostas. A perda de controle sobre os jogos apareceu em seguida, com 24,13%, enquanto a decisão voluntáriarespondeu por 18,93% dos registros. As dificuldades financeiras foram apontadas em 10,91% dos pedidos.
Antes do Mundial, a perda de controle era a justificativa predominante, representando 43,56% das solicitações. A mudança sugere que parte dos usuários passou a utilizar a ferramenta como medida preventiva ou de proteção de dados, e não necessariamente em razão de problemas relacionados ao jogo.
Crescimento não indica, por si só, aumento da dependência
Os dados mostram um aumento na utilização da ferramenta durante a Copa do Mundo, mas não permitem concluir, isoladamente, que houve crescimento proporcional dos casos de dependência em jogos.
Entre as possíveis explicações estão a maior divulgação da plataforma durante o torneio e o uso preventivo da autoexclusão por pessoas que desejavam impedir o uso do próprio CPF em sites de apostas.
Ainda assim, o levantamento indica que a maior exposição das apostas esportivas durante uma competição de grande alcance levou milhares de brasileiros a recorrerem ao mecanismo oficial de restrição.
CPF
Apesar de ser frequentemente chamada de “bloqueio do CPF”, a medida não interfere na validade do documento para atividades civis, financeiras ou serviços públicos.
Na prática, a autoexclusão impede que o CPF seja utilizado para acessar ou criar contas nas plataformas de apostas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas.
Com apenas uma solicitação, o usuário fica impedido de utilizar todas as operadoras licenciadas em âmbito federal durante o período escolhido. Além disso, as empresas autorizadas deixam de enviar publicidade direcionada ao apostador.
A ferramenta, no entanto, não alcança plataformas ilegais ou operadores que atuam sem autorização no país.
Solicitação é gratuita
O pedido pode ser realizado gratuitamente, inclusive por pessoas que nunca abriram uma conta em plataformas de apostas.
Para utilizar o serviço, é necessário possuir uma conta Gov.br de nível prata ou ouro. O procedimento consiste em acessar a plataforma oficial de autoexclusão, autenticar-se com a conta Gov.br, autorizar o compartilhamento das informações, selecionar o motivo do pedido, definir o prazo do bloqueio, aceitar os termos e confirmar a solicitação.
Entre as justificativas disponíveis estão decisão voluntária, dificuldades financeiras, perda de controle sobre as apostas, recomendação de profissional de saúde, prevenção ao uso dos dados pessoais em plataformas de apostas ou, ainda, a opção de não informar o motivo.
Segundo o Governo Federal, o processamento da solicitação ocorre em até 72 horas.
Saldo pode ser resgatado
Após a inclusão do CPF no sistema de autoexclusão, as empresas autorizadas têm até três dias para encerrar a conta do usuário e informar o motivo do fechamento.
Caso exista saldo disponível, o apostador poderá solicitar o saque dos recursos em até dois dias. Por isso, é recomendado acompanhar as comunicações enviadas pela operadora antes da efetivação do encerramento da conta.
Diferentemente da exclusão de cadastro em apenas uma plataforma, a autoexclusão centralizada impede o acesso a todas as empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas.
Prazo mínimo deve ser respeitado
A plataforma permite escolher períodos de um, três, seis, nove ou 12 meses, além da opção por prazo indeterminado.
Quem opta por um período determinado não pode cancelar a restrição antes do término do prazo escolhido. Após o vencimento, o acesso poderá ser restabelecido, desde que não exista outra restrição vigente.
Já nos casos de autoexclusão por prazo indeterminado, o pedido de revogação somente pode ser apresentado após 12 meses. O retorno depende de análise da Secretaria de Prêmios e Apostas e exige documentação específica, incluindo dois relatórios emitidos por profissionais de saúde que indiquem a ausência de transtorno relacionado ao jogo.