Presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), Edison Tamascia

Presidente da federação de redes de farmácias chama bets de ‘concorrência invisível‘ e pede ‘batalha da sociedade brasileira’

  • Última modificação do post:28 de maio de 2026
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Segundo Edison Tamascia, bets passaram a absorver parte da renda que anteriormente era direcionada ao consumo tradicional

O presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), Edison Tamascia, afirmou que as plataformas de apostas online se transformaram na “maior concorrência invisível” do varejo brasileiro e alertou para impactos econômicos, sociais e comportamentais relacionados ao avanço das bets no país.

Em artigo publicado nesta quarta-feira (28), o executivo afirmou que o varejo brasileiro passou a enfrentar uma nova dinâmica de concorrência, as apostas online.

“Hoje, os maiores concorrentes do varejo são invisíveis, digitais e estão presentes no celular de milhões de brasileiros. Não mantêm vitrines físicas, não geram a mesma cadeia de empregos que o varejo tradicional e, mesmo assim, vêm absorvendo uma parcela crescente da renda da população”, escreveu.

Segundo ele, as bets passaram a absorver parte da renda que anteriormente era direcionada ao consumo tradicional.

“Recursos que antes eram destinados à compra de alimentos, medicamentos, produtos de higiene, materiais de construção, vestuário e outros itens essenciais passaram a ser direcionados para apostas digitais”, afirmou.

‘Perdas sucessivas’

Ainda de acordo com o dirigente, o fenômeno teria impactos diretos no comportamento de consumo das famílias.

“O dinheiro sai do consumo produtivo e entra em uma lógica de perdas sucessivas e de alto potencial de dependência”, escreveu.

No texto, Tamascia afirmou que o problema seria mais perceptível entre as classes de menor renda.

“ A promessa de ganho rápido cria uma falsa sensação de oportunidade financeira, mas o que vemos na prática é o maior comprometimento da renda familiar, alta no endividamento e deterioração das condições de consumo”, declarou.

Segundo ele, os reflexos já seriam percebidos por empresas de diferentes setores da economia.

Empresas de diversos segmentos já observam aumento de problemas financeiros entre colaboradores, maior procura por empréstimos, queda de produtividade, ansiedade, dificuldades emocionais e até afastamentos relacionados ao vício em jogos. Em algumas organizações, já existem relatos de funcionários com salários completamente comprometidos por dívidas ligadas às apostas”, afirmou.

Ludopatia

Ao abordar o avanço da ludopatia, Tamascia afirmou que o tema tende a ganhar relevância nos próximos anos.

“A ludopatia, transtorno relacionado ao vício em jogos, já afeta milhares de brasileiros e tende a crescer rapidamente se não houver ações estruturadas de prevenção, conscientização e tratamento. O impacto chega inevitavelmente às famílias, às empresas e ao sistema público de saúde”, pontuou.

Influenciadores

Outro ponto destacado no artigo foi a presença massiva das plataformas de apostas no ambiente digital.

“Influenciadores digitais, celebridades, campanhas esportivas e conteúdos patrocinados contribuem para normalizar um comportamento extremamente perigoso, muitas vezes atingindo jovens e adolescentes”, afirmou.

Segundo o presidente da Febrafar, a publicidade constante das bets torna o debate ainda mais complexo.

Vivemos hoje uma realidade completamente digitalizada, em que o estímulo às apostas está disponível 24 horas por dia, nas redes sociais e plataformas consumidas pela população. Isso torna o enfrentamento ainda mais complexo e exige uma discussão séria sobre limites, publicidade e responsabilidade”, escreveu.

Tabagismo

O executivo também comparou o atual momento das apostas online ao histórico enfrentamento do tabagismo no Brasil.

“O combate ao tabagismo é um exemplo importante. Houve um processo gradual de conscientização da população. Restrições publicitárias, campanhas educativas e políticas públicas reduziram significativamente os danos causados pelo cigarro”, declarou.

Na avaliação de Tamascia, o país precisaria ampliar o debate sobre regulamentação e responsabilidade no setor.

“Não se trata de radicalismo ou proibição pura e simples. Trata-se de responsabilidade social, proteção da população e construção de mecanismos que reduzam os impactos negativos que já começam a comprometer a economia e a saúde coletiva”, afirmou.

Saúde pública

O dirigente revelou ainda ter promovido reuniões com representantes do varejo, indústria e entidades empresariais para discutir o tema.

“O mais relevante desse encontro foi perceber que não existe divergência sobre a gravidade da situação. Todos os canais estão sendo impactados. O varejo percebe a redução do consumo. O setor produtivo observa o aumento do endividamento. As empresas enxergam reflexos na saúde emocional dos colaboradores. E as entidades entendem que o tema precisa deixar de ser tratado apenas como uma questão econômica para ser encarado também como um desafio social e sanitário”, escreveu.

Segundo ele, o assunto ultrapassaria os limites do varejo e alcançaria toda a cadeia econômica e social do país.

“Essa não é uma pauta de um único setor ou de uma única entidade. Trata-se de um tema suprassetorial e apartidário”, afirmou.

 Tamascia ainda defendeu participação ativa da sociedade civil e do poder público no debate sobre apostas online.

“O varejo não pode ignorar que parte relevante da renda das famílias está sendo drenada para plataformas digitais de apostas. As empresas não podem ignorar os impactos sobre seus colaboradores. O setor público não pode ignorar o crescimento do problema de saúde associado ao vício em jogos”, escreveu.

O presidente da Febrafar convocou uma “batalha”contra o setor.

“Essa batalha não é apenas do varejo. É uma batalha da sociedade brasileira”, concluiu.

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