Presidente relata casos de endividamento, ludopatia e suicídio associados ao jogo online e afirma que eventual decisão sobre o setor dependerá de discussões dentro do governo e com a sociedade
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender nesta quarta-feira (16) a possibilidade de acabar com as apostas online no Brasil. Em entrevista ao canal no YouTube Desce a Letra Show, Lula comparou os efeitos da dependência das bets aos problemas enfrentados por famílias durante a expansão do crack no país e afirmou ter uma “disposição pessoal” para extinguir a atividade.
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Apesar da posição, o petista ressaltou que uma eventual decisão não seria tomada exclusivamente a partir de sua avaliação pessoal. Segundo Lula, o assunto já foi discutido em reuniões dentro do governo e também com representantes da sociedade. Declarações anteriores do presidente na mesma direção também vêm sendo registradas no debate público sobre o setor.
“Nós estamos discutindo. Já fiz três reuniões do governo, já fiz reunião com a sociedade. E a minha disposição pessoal é acabar com as bets, mas eu tenho que levar em conta o que pensa a sociedade”, afirmou.
Sumário
Lula relata dívidas milionárias
Durante a entrevista, Lula afirmou ter conversado pessoalmente com pessoas que enfrentaram problemas relacionados à ludopatia. Os relatos, segundo o presidente, incluíram perdas patrimoniais, endividamento elevado e casos de tentativa de suicídio e suicídio.
Entre os exemplos apresentados por Lula está o de um homem que teria acumulado R$ 2,2 milhões em dívidas depois de perder o terreno do pai, a própria loja e o automóvel. O presidente também mencionou uma mulher de 27 anos que, segundo o relato apresentado na entrevista, teria chegado a R$ 730 mil em dívidas relacionadas às apostas.
Foi ao abordar a compulsão e a busca contínua por recursos para continuar jogando que Lula comparou o comportamento relatado por apostadores ao observado entre dependentes de crack.
“Você está lembrado quando surgiu o crack? O que acontecia com o cara que era viciado? Ele chegava em casa, a mãe não estava na cozinha, ele tirava o botijão de gás do fogão para vender e comprar crack. O outro pegava o alimento que estava na prateleira, o arroz e o feijão, para vender e comprar crack. A bet está assim. As pessoas estão vendendo o que não têm, se endividando, para jogar, porque todo mundo acha que vai ficar rico na hora. E ninguém cria jogatina para a gente ficar rico. Um pode ganhar para um milhão perder”, declarou.
Apostas dentro de casa
Outro ponto abordado por Lula foi a facilidade de acesso às plataformas por meio de celulares. Na avaliação apresentada pelo presidente, a disponibilidade permanente dos jogos faz com que as apostas acompanhem o usuário em praticamente todos os ambientes.
Ao tratar do tema, Lula rejeitou a diferenciação entre plataformas que poderiam ser consideradas boas ou ruins, argumentando que todas têm o jogo como atividade central.
“Eu ando muito irritado com isso. Eu quero ter muita responsabilidade, mas esse negócio de ‘tem bet boa e bet ruim’ não. Todas as bets vivem de jogo. Agora o jogo está dentro da sua casa, está na sua cama, no seu banheiro. Essa menina que deve R$ 730 mil, ela ia tomar banho escondida do marido, levava um celular e jogava tomando banho”, apontou.
Segundo o presidente, os problemas relacionados às apostas também teriam atingido funcionários que trabalham na estrutura do governo e nas instalações da Presidência da República. Lula mencionou dois colaboradores endividados e afirmou que um deles teria acumulado dívida de R$ 10 mil apesar de receber salário mensal de R$ 4 mil.
Lula cita suicídios
O presidente também relacionou o endividamento provocado pelo jogo a situações mais graves. Durante a entrevista, mencionou o caso de um jovem de 26 anos que morreu por suicídio e o de uma mulher que teria tentado tirar a própria vida diante das dívidas e da vergonha de revelar a situação à família.
Lula também relatou o caso de um jovem soldado que trabalhava no Palácio da Alvorada e que, segundo ele, morreu por suicídio após acumular uma dívida de R$ 200 mil.
“Não dá para você permitir um tipo de jogo que leva as pessoas à morte. É muito triste você ver os caras contar, chorando. Uma mulher já tentou se matar três vezes, com vergonha do marido, do pai, porque enganou o pai, a mãe, o filho, o compadre… A pessoa vai enganando todo mundo”, lamentou o presidente.
Os casos foram apresentados por Lula durante a entrevista como relatos recebidos por ele. O presidente não apresentou, durante as declarações reproduzidas, documentação ou outros elementos que permitissem verificar individualmente cada episódio.
Decisão não será tomada de forma ‘abrupta’
Apesar de defender pessoalmente o fim das bets, Lula afirmou que pretende analisar as consequências de uma eventual mudança antes de adotar uma medida.
O debate ocorre em um momento em que propostas relacionadas aos impactos das apostas sobre saúde mental, consumidor e orçamento familiar também tramitam no Congresso. No Senado, por exemplo, o PL 2.470/2026 é objeto de discussão e trata especificamente de prevenção e redução de danos no ambiente de apostas de quota fixa e jogos online.
Na entrevista desta quarta-feira, Lula reforçou que sua posição pessoal é contrária à continuidade das plataformas, mas reconheceu que, na condição de presidente, precisa considerar outras avaliações antes de uma decisão.
“Se depender da minha vontade pessoal, eu acabo com as bets. Obviamente eu sou presidente e tenho que ouvir outras pessoas, porque não posso tomar uma decisão abrupta, sem pensar nas consequências. Mas, sinceramente, as bets são uma desgraça nesse país para o povo pobre, que trabalha e que perde seu dinheiro jogando. O endividamento de uma parte da sociedade é por conta disso”, concluiu.