Projeto em tramitação na Câmara de São Paulo pode atingir contratos de Corinthians, Palmeiras e São Paulo
Os principais clubes de futebol de São Paulo acompanham com preocupação o avanço de um projeto que pretende restringir a publicidade de empresas de apostas esportivas na capital paulista. A proposta pode afetar diretamente contratos de patrocínio de Corinthians, Palmeiras e São Paulo e provocar perdas que, segundo estimativas do mercado, podem chegar a R$ 1 bilhão ao longo das temporadas.
A discussão levou os três grandes Clubes de SP e a Federação Paulista de Futebol (FPF) a se mobilizarem politicamente para acompanhar a tramitação da proposta e discutir seus possíveis efeitos econômicos e esportivos.
Atualmente, as empresas de apostas ocupam posição relevante entre os patrocinadores do futebol brasileiro. Considerando apenas os valores fixos anuais dos contratos de patrocínio máster de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, o montante chega a aproximadamente R$ 350 milhões por ano, sem contabilizar bônus por desempenho, metas contratuais e outras propriedades comerciais.
A eventual restrição também poderia atingir receitas relacionadas a placas de publicidade, painéis de LED, ativações realizadas nos estádios e outras modalidades de exposição comercial vinculadas às marcas de apostas.
Sumário
Projeto avança na Câmara de São Paulo
A proposta foi apresentada pelo vereador João Jorge (MDB) e recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal.
O projeto prevê a proibição da publicidade de apostas em eventos esportivos profissionais ou amadores realizados na cidade, independentemente de ocorrerem em espaços públicos ou privados.
A restrição alcançaria diferentes formatos de exposição das marcas, incluindo uniformes, placas, faixas e telões instalados em espaços esportivos.
O texto também estabelece penalidades para eventuais descumprimentos. Entre elas estão multas a partir de R$ 50 mil por infração e a possibilidade de suspensão, por até dois anos, do direito de promover eventos esportivos no município.
Na justificativa da proposta, João Jorge relaciona o crescimento das apostas aos riscos de endividamento das famílias e aos problemas de saúde mental associados ao jogo problemático.
Clubes temem impacto financeiro e esportivo
Um dos principais argumentos apresentados pelos representantes do futebol paulista é o possível desequilíbrio provocado por uma proibição limitada ao município de São Paulo.
Caso a proposta seja aprovada nos termos atuais, clubes de outras cidades e estados poderiam continuar mantendo contratos e exibindo marcas de casas de apostas, enquanto Corinthians, Palmeiras e São Paulo enfrentariam restrições dentro da capital.
A preocupação envolve não apenas a redução das receitas comerciais, mas também o possível impacto sobre a capacidade de investimento dos clubes em comparação com adversários que permaneceriam autorizados a explorar normalmente esse tipo de patrocínio.
O presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, também manifestou preocupação com os possíveis reflexos da medida sobre a competitividade das equipes paulistas.
Como comparação do peso que as bets alcançaram no futebol nacional, o Flamengo possui atualmente o maior contrato de patrocínio máster do país, no valor de R$ 268,5 milhões, firmado com uma empresa do setor de apostas.
Mercado aponta dificuldade para substituir receitas
Especialistas também avaliam que uma eventual retirada das bets pode gerar dificuldades para a substituição imediata dos contratos. O economista Moises Assayag avalia que poucas categorias empresariais apresentam atualmente capacidade e interesse para realizar investimentos semelhantes aos feitos pelas plataformas de apostas no futebol.
Outro ponto levantado é que a disponibilidade simultânea dos espaços comerciais nas camisas de Corinthians, Palmeiras e São Paulo poderia aumentar a oferta de propriedades de patrocínio no mercado e, consequentemente, pressionar os valores negociados pelos clubes.
Também existe preocupação com os contratos que já estão em vigor. Sem uma regra de transição, uma eventual proibição poderia atingir acordos comerciais de médio e longo prazo e afetar o planejamento financeiro de clubes e demais integrantes da cadeia do futebol.
Setor questiona efeitos sobre mercado regulado
O advogado Bernardo Cavalcanti Freire, especialista no setor de apostas, também aponta possíveis consequências para o próprio mercado regulado. Na avaliação do advogado, impedir a publicidade das empresas devidamente licenciadas poderia dificultar a diferenciação, pelo consumidor, entre plataformas autorizadas e operadores clandestinos.
Desde janeiro de 2025, as empresas autorizadas a oferecer apostas de quota fixa nacionalmente precisam cumprir as exigências estabelecidas pela regulamentação federal e utilizar domínios terminados em .bet.br. A publicidade tornou-se, portanto, não apenas uma das principais ferramentas comerciais das empresas do setor, mas também um dos pontos centrais do debate sobre os limites da exposição das apostas no Brasil.
Clubes buscam diálogo com poder público
Diante do avanço da proposta, representantes dos clubes intensificaram as conversas com lideranças políticas da capital paulista. Entre as articulações estão diálogos com o prefeito Ricardo Nunes, na tentativa de discutir alternativas para a proposta e preservar contratos e investimentos já existentes.
O projeto ainda precisa cumprir outras etapas de tramitação na Câmara Municipal antes de uma eventual aprovação.