Personagem será usada para transformar dados e estatísticas esportivas em vídeos
O uso da inteligência artificial na produção de conteúdo esportivo ganhou uma nova aplicação durante a Copa do Mundo de 2026. A Flashscore, uma das maiores plataformas digitais de dados e notícias esportivas do mundo e com mais de 155 milhões de usuários mensais, desenvolveu uma apresentadora virtual capaz de transformar estatísticas e informações sobre futebol em conteúdos em vídeo adaptados para diferentes países e idiomas.
Batizada de AILA, a apresentadora é totalmente sintética e multilíngue e passa agora a integrar de forma permanente a estratégia de conteúdo da plataforma. Desenvolvida em parceria com a Fameplay, estúdio especializado em produção com inteligência artificial, a tecnologia poderá ser utilizada em conteúdos editoriais, anúncios de novos recursos, programas originais e projetos com parceiros.
A primeira experiência aconteceu durante a Copa do Mundo. A AILA apresentou o Route 48, série de perfis de jogadores produzida a partir de dados, em espanhol e português do Brasil. A apresentadora também participou de uma campanha do aplicativo realizada na América Latina, Espanha e França, com conteúdos adaptados ao idioma de cada mercado.
A iniciativa amplia uma operação de conteúdo que o Flashscore desenvolve desde 2022. Atualmente, o serviço de notícias esportivas da plataforma publica em 13 idiomas e 31 mercados, alcançando mais de 20 milhões de usuários mensalmente com conteúdos editoriais e baseados em dados.
“Nossa redação alcança milhões de pessoas, e construímos nossos próprios estúdios para aprimorar nosso conteúdo da maneira que queremos. A AILA é uma extensão disso, não uma substituição”, afirma Alan Záruba, Chief Digital Content Officer da Livesport. “Queremos permanecer na vanguarda do desenvolvimento digital e das possibilidades trazidas pela inteligência artificial. Quando apresentamos à Fameplay o conceito, usamos uma frase para definir a AILA: ela é construída a partir de números, mas fala por meio de histórias”, completou.
A criação da AILA começou em 2025 e combina elementos humanos com tecnologia generativa. Os movimentos, gestos, expressões e a performance diante das câmeras foram captados a partir de uma atriz real. Já o rosto foi desenvolvido inteiramente de forma sintética e não corresponde à aparência de nenhuma pessoa real identificável.
Segundo as empresas, essa construção permite utilizar a mesma personagem em diferentes mercados, formatos e idiomas, sem depender da disponibilidade de uma apresentadora humana. “A AILA foi criada separando deliberadamente dois elementos. A performance — movimentos, expressões faciais e presença diante das câmeras — foi licenciada a partir de uma atriz real. O rosto, por outro lado, foi criado inteiramente do zero: é totalmente sintético e de propriedade integral”, explica Lukáš Záhoř, Chief AI Producer e cofundador da Fameplay.
“Isso significa que não existe uma pessoa real que possa reivindicar a propriedade dessa imagem. A AILA pode falar dezenas de idiomas, aparecer em diferentes formatos e ser utilizada a qualquer momento, sem as limitações de disponibilidade de uma apresentadora humana”, acrescenta.
Záhoř também diferencia o projeto de outros modelos de avatares digitais. “Muitos apresentadores sintéticos utilizam o rosto de uma pessoa real. Para o Flashscore, criamos um ativo que pode ganhar valor ao longo do tempo, e não um deepfake que pode gerar questionamentos sobre direitos de imagem.”
IA complementa produção humana
Apesar do uso da inteligência artificial, o Flashscore reforça que a proposta não é substituir jornalistas, editores ou sua estrutura tradicional de produção. A plataforma mantém redação própria, estúdio de transmissão, produção de podcasts e ambientes virtuais. Alguns formatos, como vídeos de pré-jogo, já são preparados de maneira semiautomática em diferentes idiomas e publicados simultaneamente nas páginas das partidas em diversos mercados.
A AILA passa a funcionar como uma nova camada dessa estrutura, permitindo transformar informações e dados já produzidos pela plataforma em formatos audiovisuais e distribuí-los em diferentes idiomas. “A ideia da AILA começou como um conceito para um programa inovador de televisão no qual estamos trabalhando e acabou se transformando em um rosto virtual que podemos utilizar em praticamente qualquer frente — editorial, campanhas, produtos e parcerias”, afirma Záruba.
Após a experiência durante a Copa do Mundo, o Flashscore planeja inicialmente utilizar a apresentadora em três frentes. A primeira será na comunicação de novos produtos e como ferramenta interna de informação nos diferentes mercados da empresa. A segunda prevê sua participação em novos programas originais de televisão. Já a terceira envolve uma colaboração com a Opta, na qual a AILA atuará como narradora digital para explicar estatísticas e informações por trás das partidas.
A estratégia busca explorar justamente uma das principais características da personagem: a possibilidade de transformar a mesma base de informações em conteúdos adaptados para diferentes países. “Já contávamos com uma redação global impulsionada por IA para escalar nossas notícias esportivas em 31 países. A AILA abriu um espaço completamente novo e trouxe novas possibilidades para ampliar ainda mais a produção de conteúdo”, completa Záruba.