Apostas de quota fixa estão apenas na 4ª posição, representando 3,6% de adesão
A Mega-Sena segue como o jogo mais popular do país e superou as chamadas bets em número de apostadores, alcançando 15,8% da preferência, segundo levantamento recente da NielsenIQ. Na sequência, jogo do tigrinho e jogo do bicho estão entre os mais acessados. As bets ocupam a 4ª posição. O estudo aponta ainda que 26,3% dos lares participaram de algum tipo de aposta ao longo do ano, evidenciando o avanço do setor no cotidiano da população.
“A Mega-Sena carrega um fator cultural muito forte no Brasil, aliado à simplicidade e à percepção de segurança por ser um jogo estatal. Diferentemente das bets, que exigem mais conhecimento e familiaridade com tecnologia, a loteria é vista como uma aposta ocasional, mais acessível e com alto apelo de ‘mudança de vida’ pelo prêmio oferecido”, explica Filipe Senna, sócio do Jantalia Advogados e Secretário-Geral da Comissão de Direito dos Jogos e Apostas da OAB/DF.
Apesar da liderança da loteria federal, os dados revelam um cenário mais complexo do que aparenta à primeira vista. Isso porque a pesquisa separa categorias como “bets” e jogos de cassino online (incluindo o popular “jogo do tigrinho”) como se fossem universos distintos, o que pode distorcer a leitura do público leigo sobre o mercado de apostas digitais.
Na prática, tanto as apostas esportivas quanto os jogos de cassino online operam sob o mesmo guarda-chuva regulatório no Brasil. Desde a Lei 14.790/2023, as plataformas autorizadas — conhecidas popularmente como bets — podem oferecer não apenas apostas em eventos esportivos, mas também jogos como slots, roleta e crash games. Ou seja, o “tigrinho” não é uma categoria isolada, mas um produto dentro das próprias bets.
“Há uma falha metodológica relevante quando a pesquisa separa bets e jogos de cassino online como se fossem atividades independentes. Isso pode induzir o leitor a acreditar que se tratam de mercados distintos, quando, na realidade, fazem parte da mesma estrutura regulatória e, muitas vezes, da mesma plataforma”, analisa o advogado. “Essa distinção artificial dificulta a compreensão do consumidor sobre como funciona o ecossistema de apostas no Brasil”.
Outro dado que chama atenção é que as apostas esportivas, categorizadas na pesquisa como ‘bets’, aparecem apenas na quarta posição entre as modalidades mais praticadas, com 3,6% de adesão. O número contrasta com a percepção comum de que esse tipo de aposta domina a preferência do consumidor, especialmente diante da forte presença publicitária das plataformas digitais e do crescimento do setor, que já movimenta bilhões no país.
Para o especialista, a leitura isolada dos dados pode levar a conclusões equivocadas sobre o comportamento do apostador brasileiro.
“Quando se fragmenta o que, na prática, está integrado, perde-se a dimensão real do mercado. A Mega-Sena lidera, mas isso não significa que as bets estejam atrás, pois elas estão diluídas em diferentes categorias dentro da própria pesquisa, nem que a Mega-sena seja um produto perfeito, visto que há muito o que se otimizar nessa modalidade, especialmente se comparada a modelos internacionais semelhantes, como o Power ball dos Estados Unidos”, conclui Senna.
Fonte:
Filipe Senna – Sócio do Jantalia Advogados. Secretário-Geral da Comissão de Direito de Jogos da OAB/DF. Autor do livro “A Regulação da Sorte na Internet”. Mestre em Regulação de iGaming pelo IDP/DF.