Clubes do Velho Continente estabelecem parcerias com outros setores e empresas locais
Os clubes de futebol da Europa e do Brasil seguem modelos distintos de captação de receitas comerciais. Enquanto no continente europeu há uma diversificação de setores e forte presença de patrocinadores locais, no Brasil, o mercado de patrocínios é dominado pelas casas de apostas.
A análise foi apresentada pelo especialista em gestão esportiva Cesar Grafietti, na coluna publicada no portal Inteligência Financeira. O levantamento faz parte do Relatório Convocados, que originalmente era produzido pelo Itaú BBA e, nos últimos três anos, passou a ser publicado no mercado sob o mesmo nome da consultoria de Grafietti.
De acordo com o especialista, os clubes europeus têm maior capacidade de atrair empresas de diferentes setores, enquanto no Brasil a dependência das bets vem crescendo de maneira expressiva.
“Esta receita tem sido motivo de alegria para os clubes, com a chegada forte das casas de apostas – as bets – e de preocupação para quem enxerga nesse momento uma bolha”, alerta Grafietti.
O relatório anual da UEFA Football Landscape, utilizado como base para a comparação, revela que, apesar da presença das casas de apostas em ligas como a Premier League, Portugal, Holanda e Bélgica, o mercado europeu mantém um equilíbrio maior, com forte presença de patrocinadores da aviação, automotivo, tecnologia e telecomunicações.
Temporada 2023/24
A análise da temporada 2023/24 mostra que a maioria dos clubes europeus mantém seus patrocinadores masters de um ano para outro. Segundo os dados, a taxa de renovação desses contratos é de 65% na Premier League, 82% na LaLiga e 88% na Bundesliga. Já na Turquia, onde há maior rotatividade no mercado de patrocínios, esse percentual cai para 56%.
O estudo também aponta que, em ligas como a Premier League e a Eredivisie, as casas de apostas possuem um papel relevante no patrocínio, mas ainda assim compartilham espaço com outras indústrias. Na Inglaterra, por exemplo, apesar da presença das bets, os seis maiores clubes do país possuem contratos com empresas dos setores de aviação, financeiro e tecnologia.
Segundo Grafietti, a regulamentação mais rígida nesses mercados também impõe restrições ao patrocínio de apostas esportivas. Ele lembra que, na Espanha, as bets são proibidas de patrocinar eventos esportivos, e que na Itália há uma restrição semelhante, mas algumas equipes utilizam um modelo alternativo, vinculando suas camisas a “sites de notícias” com nomes idênticos ao das casas de apostas – estratégia adotada pela Inter de Milão.
Com mais exposição global, as ligas europeias atraem marcas de diferentes setores, permitindo que os clubes construam parcerias de longo prazo e reduzam sua dependência de um único segmento.
Brasil: cenário dominado pelas bets
No Brasil, o patrocínio das bets é predominante, com quase todos os clubes da Série A e B tendo contratos com casas de apostas. Sem uma regulamentação mais rígida para esse tipo de publicidade, o setor se tornou o principal investidor no futebol brasileiro.
A concentração de investimentos levanta questionamentos sobre o futuro da categoria no país. Há um debate sobre a possível proibição do patrocínio das bets em eventos esportivos, semelhante ao que ocorreu na Espanha e na Itália. No entanto, Grafietti pondera se haveria empresas dispostas a preencher esse espaço caso as apostas fossem vetadas.
“Será que aqueles que pedem isso estão dispostos a ocupar o espaço com o mesmo valor? Estão dispostos a bancar o desenvolvimento esportivo no Brasil?”, questiona Grafietti.
Apesar dessa dependência, os clubes brasileiros registraram um crescimento de 31% na receita comercial entre 2022 e 2024, percentual superior ao observado na Europa, onde o aumento foi de 12% no mesmo período.
Para Grafietti, os números indicam que o futebol no Brasil segue como uma plataforma valiosa para exposição de marcas, mas a falta de diversificação nos patrocinadores ainda representa um risco. Ele alerta que, sem uma estratégia para atrair empresas de diferentes setores, os clubes podem enfrentar dificuldades caso haja uma regulação mais severa sobre os contratos com casas de apostas.
“O futebol segue sendo uma grande fonte de divulgação de marca, mesmo num contexto em que a disputa por dinheiro e atenção é cada vez mais acirrada. Precisamos cuidar dessa indústria”, conclui Grafietti.