Produtos atraem torcedores, mas especialistas apontam baixo retorno financeiro
O mercado de títulos de capitalização tem ganhado espaço entre os clubes de futebol brasileiros, em um movimento que mistura sorteios, marketing e paixão esportiva. Segundo levantamento publicado pelo Estadão, o setor arrecadou R$ 32 bilhões em 2024 e tem apostado em celebridades como Neymar e Gabigol para impulsionar campanhas voltadas aos torcedores.
Esses produtos, que funcionam como uma poupança sem rendimento garantido, oferecem sorteios de prêmios em dinheiro, carros e experiências exclusivas com os clubes. Embora o formato pareça inofensivo, especialistas ouvidos pelo Estadão alertam para o baixo retorno financeiro e as chances mínimas de premiação. Um exemplo citado mostra que, em um sorteio com 20 milhões de títulos, seria preciso comprar 200 mil unidades (R$ 10 mil) para alcançar 1% de chance de ganhar R$ 500 mil.
Futebol
Clubes como Santos, Grêmio, São Paulo, Corinthians, Fortaleza e Vasco firmaram parcerias com empresas do setor, entre elas a Viva Sorte e a Pix das Estrelas. As campanhas unem o discurso de apoio ao time com a promessa de prêmios — mas frequentemente geram confusão.
No caso do Grêmio, a ação “Pix das Estrelas” levou torcedores a acreditarem que contribuições via Pix bancariam contratações. A demora na chegada dos reforços gerou frustração, e o clube precisou se desculpar publicamente. Já o Santos, patrocinado pela Viva Sorte, mantém o nome “Vila Viva Sorte” na Vila Belmiro e contou com o apoio da marca na repatriação de Neymar, também garoto-propaganda da empresa.
E-books
Segundo o Estadão, a Pix das Estrelas usou e-books como isca comercial para sorteios de até R$ 300 mil, prometendo ajudar o clube e “mudar a vida” dos torcedores. No entanto, os livros utilizados eram produzidos gratuitamente pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que anunciou medidas judiciais por uso indevido do material.
A Superintendência de Seguros Privados (Susep) confirmou que a empresa possui licença apenas para o modelo de incentivo — que proíbe prêmios em bens, como carros. Mesmo assim, parte da divulgação citava veículos entre as recompensas. O Grêmio apagou postagens que mencionavam o prêmio físico, mas manteve o texto em seu site.
A Susep reforçou que “o principal objetivo de um título de capitalização é a própria capitalização, devendo o sorteio ter caráter acessório e secundário”, em nota enviada ao jornal.
Fim de parcerias
Diversos clubes encerraram suas parcerias com empresas de títulos de capitalização após determinações da Susep e polêmicas regulatórias. A Viva Sorte, por exemplo, suspendeu campanhas como “Viva Timão”, “Viva Tricolor” e “Viva Vascão”. No caso do São Paulo, o rompimento também foi motivado pela entrada da empresa no mercado de apostas esportivas, que conflitou com contratos de outra patrocinadora do setor.
Mesmo com o recuo, empresas seguem operando na modalidade filantrópica, em que o valor do título não é devolvido ao comprador, sendo destinado a instituições como o Hospital do Câncer de Londrina.
Semelhanças com apostas
De acordo com a planejadora financeira Mariana Banja, os títulos de capitalização “se assemelham muito mais a uma aposta do que a uma aplicação financeira”. Ela explica que, apesar de envolver pagamentos e resgates, “a possibilidade de ganhar é sedutora, e o prazer da aposta muitas vezes afasta a racionalidade necessária na tomada de decisão”.
A especialista reforça que alternativas conservadoras, como Tesouro Direto e CDBs de liquidez diária, costumam oferecer melhores rendimentos, transparência e menor custo.
A influenciadora financeira Nathalia Arcuri, fundadora da Me Poupe!, também criticou o modelo. “Esses produtos são vendidos para provar que você não é competente para juntar dinheiro, sempre atrelando o sucesso a um bem”, afirmou.
