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Presidente do COB quer reduzir dependência da entidade de bets e loterias

  • Última modificação do post:18 de fevereiro de 2026
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Concentração desses recursos é vista pela administração como um risco estrutural

O presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco Antônio La Porta, afirmou que a atual gestão trabalha para reduzir a dependência financeira da entidade em relação aos repasses das loterias e às receitas provenientes das apostas esportivas. À Coluna Raio-X, da Folha de São Paulo, o gestor falou sobre expectativa sobre receitas; preparação para as próximas olimpíadas, em Los Angeles; atletas trânsgeneros e situação política nos EUA.

Em 2025, o COB registrou receita de R$ 594 milhões, sendo cerca de 75% originados das loterias. A concentração desses recursos é vista pela administração como um risco estrutural.

“Sempre fazemos uma análise de ameaças e riscos [para a gestão]. As ameaças podem ser, por exemplo, o governo, com algum deficit, decidir revogar as leis que dão recursos ao esporte. Então, temos que estar prontos”, afirmou.

O dirigente relembrou o episódio de 2019, quando os repasses foram suspensos após a Caixa apontar uma dívida tributária vinculada à Confederação Brasileira de Vela. A liberação ocorreu posteriormente com intervenção do governo federal.

“Vamos supor, por exemplo, que um dia os deputados revoguem o repasse dos recursos vindos de loterias. Como o COB vai sobreviver?”, questionou.

À frente do comitê há pouco mais de um ano, La Porta estabeleceu como meta ampliar a captação privada e diversificar receitas. “Essa é a nossa missão”, disse o presidente, cujo mandato vai até 2028, ano dos Jogos de Los Angeles.

Ao avaliar o primeiro ano de gestão, destacou o reposicionamento institucional da entidade.

“Foi o reposicionamento do COB na política nacional e internacional. O comitê estava afastado de Brasília, de outros comitês e de entidades internacionais. Nós retomamos essa presença e aprovamos a Lei de Incentivo ao Esporte, liderando o processo. Também avançamos no campo comercial, com a aproximação de empresas e a assinatura de um contrato com a Adidas, que considero a maior conquista comercial do primeiro ano.”

Ele também detalhou a articulação no Congresso. “O COB liderou esse processo, dialogando com deputados e senadores, especialmente com a deputada Laura Carneiro [PSD-RJ] e a senadora Leila Barros [PDT-DF]. Essa lei está totalmente alinhada ao nosso discurso de nação esportiva, com foco em desenvolvimento e projetos sociais. Não tem tanto a parte de alto rendimento porque isso é papel do COB, mas tem o que é preciso para o fomento e desenvolvimento do esporte.”

Entre as prioridades legislativas estão a regulamentação das apostas esportivas e a redução de tributos para equipamentos. “Criamos o Conselho Nacional dos Comitês Esportivos. A gente tem pautas que são muito importantes para a gente, como questões ligadas à regulamentação das bets e à isenção para importação de material esportivo. Isso impacta diretamente o atleta. Para comprar um barco, por exemplo, você paga R$ 50 mil, R$ 60 mil a mais só de impostos.”

Déficit

A entrevista também abordou o deficit de R$ 78 milhões herdado da gestão anterior. “O deficit foi aprovado em assembleia em 2024, após um aumento do repasse às confederações, que passou de cerca de 45% para 60% das receitas de loterias. Isso reduziu o caixa em R$ 78 milhões. Nós temos um fundo de reserva que permitia absorver esse impacto, mas esse fundo serve para emergências.”

“E encerramos o ano com equilíbrio financeiro. Para 2026, aprovamos o orçamento com superavit de R$ 8 milhões, mantendo o repasse de 60% às confederações”, acrescentou.

Na preparação para Los Angeles-2028, o presidente citou atletas que estiveram próximos do pódio em Paris-2024. “Eu citaria quatro atletas desse grupo que estão indo muito bem: Hugo Calderano [tênis de mesa], Marcus Vinicius D’Almeida [tiro com arco], Ana Sátila [canoagem slalom] e Miguel Hidalgo [triatlo]. Eles estão no caminho certo. Nós temos uma atenção especial com cada um deles.”

“Então, é atuar com os atletas para ver o que faltou”, afirmou.

A saúde mental também foi apontada como eixo de trabalho permanente. “Não dá para se preocupar com a saúde mental apenas no alto rendimento. Esse trabalho precisa começar desde cedo, na transição da base”, explicou

“Na maior parte das vezes, os problemas são causados pelas redes sociais, pela necessidade de mostrar que está sempre bem, mostrar resultado, dar satisfação para o patrocinador, e pela dificuldade de lidar com as críticas”, complementou.

Atletas transgênero

Ao tratar da participação de atletas transgênero, reforçou o alinhamento com o Comitê Olímpico Internacional (COI). “Seguimos o posicionamento do COI, que tem uma política muito clara. O esporte precisa ser inclusivo, justo e seguro. Então, não podemos proibir nenhuma pessoa de praticar esporte. Mas cada modalidade define suas regras, e essas regras privilegiam justiça, com condições iguais para todo o mundo, e segurança para o atleta competir.”

Em relação ao cenário geopolítico e aos Jogos de 2028, afirmou não acreditar em boicote. “Eu não consigo imaginar um país não indo aos Jogos por causa de uma questão geopolítica contra os Estados Unidos.”

“Posso estar sendo otimista demais, mas não vejo hoje um cenário de países boicotando os Jogos”, concluiu.

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