Especialistas discutiram retomada da confiança do apostador e integração entre produtos físicos e digitais
As loterias tradicionais e sua relevância econômica e social foram tema do segundo painel do primeiro dia do I Congresso Nacional de Loterias do Brasil. Especialistas discutiram os desafios enfrentados pelas operações físicas diante da expansão das apostas online, da transformação digital do setor e da necessidade de fortalecer a confiança do consumidor.
Participaram do encontro Fabíola Esteves, presidente da LOTERJ; Ana Florência Anastacia, representante do Consórcio Mineira da Sorte Loteria; Amilton Noble, CEO da Hebara; Giovanna Dias, representante da ANJL; e o advogado Francisco Saint Clair.
Durante o debate, os participantes destacaram que as loterias físicas seguem com potencial relevante no Brasil, mas precisam passar por um processo de modernização, com novos produtos, ampliação dos pontos de distribuição e estratégias capazes de dialogar com o atual perfil do apostador.
Fabíola Esteves afirmou que o setor precisa repensar os formatos de comercialização e criar novos produtos voltados à realidade do mercado brasileiro.
“Hoje a gente não tem mais o mesmo perfil de distribuição de antigamente. Então, por que não voltar a dialogar com novos pontos de venda? A gente também precisa pensar em novos produtos. Ficamos muito presos à raspadinha e aos produtos numéricos”, afirmou.
A presidente da Loterj também destacou que mercados internacionais seguem registrando forte consumo de produtos físicos mesmo após a expansão dos jogos online.
“A gente vê que na América Latina e também na Europa existe um consumo muito grande de produtos físicos. Então, precisamos pensar em novos caminhos para o desenvolvimento das loterias no Brasil”, completou.
Amilton Noble defendeu a integração entre diferentes modalidades lotéricas como forma de fortalecer a presença do setor nos pontos de venda físicos.
“O ideal é você ter uma operação integrada de todas as modalidades de loteria para levar uma oferta mais consistente para o ponto de venda. Quando você explora produtos isolados, existe uma dificuldade maior de criar uma oferta atrativa”, disse.
O CEO da Hebara também citou o mercado italiano como exemplo da força das loterias instantâneas físicas.
“O mercado italiano movimenta cerca de 13 bilhões de euros por mês em produtos físicos. Isso mostra que o produto ainda é muito forte”, destacou.
Ana Florência Anastacia afirmou que a retomada das loterias físicas depende diretamente da reconstrução da confiança do consumidor.
“O ativo maior que a loteria tem é a confiança. O produto é bom, mas precisamos trabalhar a confiança do jogador, do regulador e dos próprios agentes públicos”, afirmou.
Segundo ela, o longo período sem operações físicas em alguns estados criou dificuldades para a retomada do mercado.
“Quando você tira o produto do mercado e depois tenta recolocar, o consumidor não volta automaticamente. Você precisa reconstruir essa relação”, explicou.
Ana Florência também ressaltou a importância da qualificação dos vendedores e da adoção de práticas ligadas ao jogo responsável.
“O jogo mudou. Hoje, aquele vendedor que já trabalhava há 20 anos com raspadinha precisa aprender novas práticas e entender questões ligadas ao jogo responsável”, acrescentou.
Giovanna Dias abordou a relação entre as loterias tradicionais e as apostas de quota fixa, defendendo que ambas fazem parte de um mesmo contexto regulatório.
“As apostas de quota fixa também são uma modalidade lotérica autorizada pela União. Existe uma percepção diferente do público, mas ambas fazem parte de um serviço público autorizado pelo Estado”, disse.
A representante da ANJL afirmou ainda que o debate regulatório precisa considerar as diferenças entre os modelos, sem ignorar a função social desempenhada pelo setor.
“As modalidades são diferentes, têm públicos diferentes e impactos diferentes, mas ambas possuem uma função social e fazem parte da exploração lotérica autorizada pelo Estado”, concluiu.
Além das discussões sobre modernização e confiança do consumidor, o painel também abordou a relação entre as loterias tradicionais e as apostas de quota fixa dentro do mercado regulado brasileiro.
Amilton Noble destacou que ainda existe uma percepção diferente entre as loterias físicas e as apostas online, apesar de ambas integrarem o ambiente regulado de apostas no país.
“Muitas vezes, quando a gente pensa em apostas online, isso não é associado automaticamente à atividade lotérica. Essa diferença de percepção é uma das discussões mais importantes do setor hoje”, afirmou.
Segundo o CEO da Hebara, o fortalecimento da imagem do mercado regulado passa também pela construção de uma visão mais ampla sobre o papel das apostas autorizadas pelo Estado.
“A construção da legitimidade do setor regulado passa por mostrar que as apostas de quota fixa também fazem parte de uma modalidade lotérica autorizada pela União. A exploração lotérica no Brasil sempre foi tratada como um serviço público”, destacou.
Ana Florência Anastacia também reforçou que a transformação do mercado exige adaptação não apenas dos operadores, mas de toda a cadeia envolvida nas loterias físicas.
“O jogo mudou. Hoje, além da venda, existe uma preocupação muito maior com educação do jogador, treinamento da rede e práticas de jogo responsável”, afirmou.
Segundo ela, o processo de retomada das loterias físicas exige trabalho contínuo de conscientização e fortalecimento da confiança do consumidor.
“Você pode ter o melhor produto, mas se não existir confiança e preparação da rede de vendas, o mercado não se sustenta”, concluiu.