Projeto é desenvolvido pelo Movimento Sustentabilidade em Campo, com apoio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)
Os clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro passarão a integrar um novo sistema de avaliação voltado às práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Batizada de Índice Brasileiro de Sustentabilidade no Futebol (IBSF), a iniciativa pretende medir o estágio de maturidade das equipes em temas ligados à sustentabilidade, transparência e responsabilidade corporativa.
O projeto é desenvolvido pelo Movimento Sustentabilidade em Campo, com apoio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e foi apresentado durante o Fórum Sustentabilidade em Campo, realizado nesta segunda-feira (3), em São Paulo. O primeiro diagnóstico está previsto para ser divulgado no início de 2027.
Sumário
Evolução dos clubes
O IBSF foi criado com o objetivo de oferecer um panorama das práticas adotadas pelos clubes brasileiros em diferentes áreas da agenda ESG.
O presidente do Movimento Sustentabilidade em Campo, Marcelo Linguitte, afirmou ao Estadão que a iniciativa acompanha a transformação dos clubes em organizações cada vez mais estruturadas sob o modelo empresarial.
Segundo ele, a evolução do futebol brasileiro tornou necessária a adoção de mecanismos capazes de mensurar transparência, governança e sustentabilidade.
“Se pensar no futebol como uma indústria esportiva, ela acabou ficando um pouco refratária a isso. Como todo segmento que gera muito recurso sem grande necessidade de acompanhar tendências, foi um setor reacionário, em uma certa medida, em assimilar algo que vinha como uma demanda da sociedade por transparência, por cobrança.”
Questionário terá 86 perguntas
A metodologia prevê o envio de um questionário composto por 86 perguntas aos 40 clubes que disputam as Séries A e B do Campeonato Brasileiro.
As questões ainda passam por processo de validação até setembro. A partir de outubro, os clubes terão prazo de 45 dias para responder ao levantamento e apresentar documentos que comprovem as informações prestadas.
Segundo o projeto, a ausência de resposta também será considerada na avaliação e aparecerá no resultado final do índice.
Após análise técnica e auditoria das informações, os clubes serão classificados conforme seu desempenho. A intenção é repetir o levantamento anualmente para acompanhar a evolução das equipes ao longo do tempo.
Critérios vão além da área ambiental
O índice será dividido em três pilares: ambiental, social e governança. Na dimensão ambiental, serão analisados aspectos como emissões de gases de efeito estufa, gestão de resíduos, eficiência energética e iniciativas de educação ambiental voltadas aos torcedores.
Já no eixo social, o levantamento abordará ações relacionadas à diversidade, inclusão e projetos sociais desenvolvidos pelos clubes.
No campo da governança, o questionário avaliará temas como participação feminina em conselhos de administração, existência de códigos de ética, políticas de combate à corrupção e transparência em contratos envolvendo atletas.
Bets
Entre os aspectos previstos na dimensão de governança, o IBSF também avaliará a relação dos clubes com as empresas de apostas esportivas, as bets.
Segundo Marcelo Linguitte, o questionário buscará identificar, por exemplo, qual é a participação financeira dos contratos de patrocínio firmados com casas de apostas em relação ao orçamento das equipes e se existem mecanismos internos destinados à prevenção e ao tratamento de irregularidades relacionadas às apostas esportivas.
“É um ponto fundamental, pois, se por um lado não dá para negar a existência delas, também não dá para ficar uma coisa solta. Há de se ter controle e acompanhamento”, afirmou.
Na avaliação do presidente do Movimento Sustentabilidade em Campo, a área social tende a apresentar os melhores resultados entre os clubes brasileiros.
Segundo Linguitte, temas como combate ao racismo, inclusão e desenvolvimento de projetos sociais já fazem parte da rotina de diversas equipes e fundações ligadas ao futebol.
Em contrapartida, ele avalia que os maiores desafios ainda estão relacionados aos pilares de governança e meio ambiente.
“Mesmo havendo necessidade de avanços grandes no social, é um tema que já está colocado. Então, há espaços que ainda precisam ser ocupados: a questão da transparência, que é um ponto fundamental, e as questões relacionadas ao impacto ambiental, que é algo que necessita de atenção.”
Projeto terá caráter educativo na fase inicial
A proposta inicial do IBSF é incentivar o aprimoramento das práticas adotadas pelos clubes sem aplicação de sanções.
Segundo Marcelo Linguitte, a expectativa é que o índice funcione inicialmente como uma ferramenta educativa, promovendo conscientização e engajamento das equipes.
“(Haverá inicialmente) um processo educativo, de envolvimento dos clubes, de sensibilização. Nesse primeiro momento, é um processo mais pedagógico. Posteriormente, pode ser que evolua para alguma coisa nesse sentido (regulatório).”
