Para CEO da BetShield, práticas exigidas pela regulamentação devem ser realmente executadas, e não apenas comunicadas
Quem nunca se sentiu enganado ao chegar em casa, abrir uma barra de chocolate e perceber que aquilo não era chocolate, mas uma sopa de letrinhas “sabor chocolate”? A frustração é imediata. A sensação de ter sido enganado também.
A embalagem promete uma coisa. O produto entrega outra. Está tudo ali, tecnicamente correto, escrito em letras pequenas. Mas não é isso que o consumidor espera quando compra. A sensação final não é de escolha consciente, é de frustração. De ter sido levado a acreditar em algo que não era exatamente verdade.
Esse mesmo mecanismo está cada vez mais presente em outro setor que cresce rápido no Brasil: o das apostas online.
O consumidor que decide apostar em um operador regulado não faz isso porque é mais caro, porque não é. Ele faz porque busca segurança. Busca atendimento. Busca previsibilidade. Busca a confiança de que seu dinheiro não vai simplesmente desaparecer e de que está lidando com uma marca que responde, que tem regras claras e que pode ser cobrada.
O problema começa quando essa promessa não se sustenta na prática. Quando boa parte da indústria afirma praticar o Jogo Responsável, mas não pratica de verdade, o impacto não se limita a uma plataforma específica. Isso vira um problema de credibilidade para todo o setor.
Porque, para o consumidor, não existe uma distinção técnica entre operadores. Existe a percepção de um mercado que prometeu cuidado, proteção e responsabilidade, mas que muitas vezes entrega apenas discurso. Avisos genéricos, links escondidos no rodapé e frases que transferem toda a responsabilidade para quem joga. “Jogue com moderação.” “Aposte com responsabilidade.” Como se isso, por si só, fosse suficiente.
Não é.
Comportamento de risco não aparece de uma hora para outra. Ele é progressivo. Dá sinais. Muda de padrão. É perceptível. E, principalmente, é prevenível.
É por isso que o conceito de “Jogo sabor Responsável” faz tanto sentido. Assim como o “sabor chocolate” não é chocolate de verdade, o Jogo Responsável que existe apenas no discurso não é responsabilidade de verdade. Tem aparência, tem rótulo, mas não tem conteúdo.
A consequência disso vai além do debate regulatório. Para uma indústria na qual a palavra reputação vem sempre acompanhada de uma interrogação, confiança é o principal ativo que se pode ter.
Enquanto o mercado regulado insiste em concentrar esforços apenas no combate ao mercado ilegal, talvez seja hora de ajustar o foco. A batalha mais urgente agora não é apenas contra quem opera fora da lei, mas a favor de garantir que quem se diz regulado cumpra, na prática, aquilo que a regulação exige.
Infelizmente, hoje, fazer o certo ainda é exceção. E enquanto isso for verdade, o mercado regulado continuará prometendo um produto e entregando algo que soa diluído. Só quando as práticas exigidas pela regulamentação forem realmente executadas, e não apenas comunicadas, a grama do mercado regulado será, de fato, mais verde do que a do ilegal aos olhos do consumidor.
Nenhuma indústria se sustenta por muito tempo vendendo algo que frustra seu consumidor. Rótulo ajuda a vender uma vez. Confiança sustenta o mercado no longo prazo.
No fim, vale a mesma lógica do supermercado. Quem entrega o que promete constrói relação. Quem vive de “sabor” perde o cliente.
Serviremos a receita ou seguiremos requentando a sopa de letrinhas?
Thiago Iusim é Founder e CEO da BetShield Responsible Gaming