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III Congresso Nacional de Loterias Municipais: painel discute comportamento compulsivo e tratamentos no SUS e rede privada

  • Última modificação do post:13 de agosto de 2025
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Médico detalhou como identificar e quais dispositivos podem tratar os problemas com jogos

Dando continuidade à programação da tarde desta quarta-feira (13), o terceiro painel do primeiro dia do III Congresso Nacional de Loterias Municipais do Brasil trouxe à pauta um tema central para a sustentabilidade e responsabilidade social do setor: “Comportamento compulsivo e tratamentos disponíveis no SUS e na rede privada”.

A apresentação foi conduzida por Helton Porcino Rocha, médico pós-graduado em Psiquiatria e especialista em comportamentos compulsivos e adicção química, que trouxe um panorama clínico e social do transtorno por jogos, já reconhecido no Cadastro Internacional de Doenças (CID-10) sob o código F63.

Helton explicou o funcionamento do circuito de recompensa da dopamina, relacionando impulsividade, mecanismos de controle e a sensação de prazer proporcionada pelo jogo. Ele destacou que o público majoritário das apostas no Brasil está entre 20 e 30 anos, mas há crescimento entre idosos e um dado relevante: mulheres tendem a desenvolver dependência mais rapidamente que homens, devido a diferenças biológicas e sociais no manejo da dopamina.

Sobre a identificação do jogador compulsivo, Helton explicou que é possível reconhecer sinais de alerta observando mudanças comportamentais e sociais significativas. Entre os principais indicadores estão o aumento progressivo do tempo e do dinheiro investidos em apostas, a priorização do jogo em detrimento de responsabilidades familiares ou profissionais, irritabilidade ou ansiedade quando não está jogando, e a tentativa constante de recuperar perdas, mesmo após prejuízos significativos. Ele reforçou que, muitas vezes, familiares e amigos percebem primeiro o problema, já que a pessoa afetada tende a negar a gravidade da situação.

O especialista também alertou para casos graves em que o jogador amplia seu escopo de apostas, passando, por exemplo, de jogos nacionais para competições internacionais em horários extremos, como partidas de basquete em Singapura às três da manhã. “Isso gera ansiedade, insônia, perda de capacidade laboral, depressão e isolamento social”, disse.

Segundo ele, mesmo quando o jogador compulsivo consegue recuperar valores perdidos, o hábito e a dependência fazem com que ele não consiga parar. “Ele pode até recuperar o dinheiro perdido, mas não para de jogar. O risco de suicídio em casos de agravamento é real e está diretamente relacionado a relatos de depressão”, alertou.

O painel também abordou o impacto social e econômico do vício, incluindo o fato de que cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família estariam apostando, e a necessidade urgente de identificação precoce, prevenção e acesso a tratamento, tanto na rede pública quanto privada, como forma de reduzir danos e apoiar famílias afetadas.

Tratamento

Helton detalhou ainda a estrutura de tratamento no Brasil, destacando que o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), criado para o manejo de doenças mentais, inicialmente voltava-se a casos como esquizofrenia e bipolaridade, mas passou a incluir transtornos como depressão, ansiedade e adicções. Nos últimos anos, foi implementado o CAPS AD, especializado em álcool e drogas, no qual, por analogia, também se enquadra a adicção ao jogo.

“No SUS, o CAPS recebe todas as pessoas que buscam ajuda para transtornos como ansiedade, depressão e jogo compulsivo. Existe tratamento, sim, e as abordagens mais eficazes incluem a terapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio como os Jogadores Anônimos — presentes no Brasil desde 1957 — e, em alguns casos, uso de medicamentos ou internação”, explicou.

Ele apontou que o CAPS não conta com orientação financeira especializada, o que é uma lacuna importante, já que o manejo das finanças é parte essencial da recuperação. Na rede privada, clínicas de reabilitação oferecem internações voluntárias, involuntárias ou compulsórias, com foco em conter a compulsividade e reduzir a fissura. “Quando o indivíduo aposta contra a sua vontade, isso deixa de ser impulsividade e passa a ser compulsão”, ressaltou.

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