Especialistas e representantes da indústria debatem estratégias de prevenção, educação e boas práticas no mercado de apostas
O segundo dia do BIS Brasília 2025 começou com um dos temas mais sensíveis e estratégicos da agenda do setor: o jogo responsável. O painel “Jogo Responsável e o Impacto Social” reuniu profissionais de diferentes frentes da indústria para discutir educação, integridade, prevenção e sustentabilidade social no mercado de apostas brasileiro.
Participaram do debate Cristiano Costa, diretor de Conhecimento (CKO) da EBAC; Fellipe Fraga, CBO da EstrelaBet; Ricardo Magri, cofundador da EBAC; Filipe Rodrigues, presidente da Associação Jogo Positivo; Mauricio Lima, Senior Business Development Manager da Oddin.gg; e Thiago Iusim, especialista em comportamento do consumidor e moderação de risco.
Os painelistas abordaram os desafios da autorregulação e da responsabilidade compartilhada entre empresas, governo e sociedade para garantir um ambiente seguro e ético de apostas. Também foram discutidas iniciativas de educação e prevenção ao jogo problemático, bem como o papel das campanhas de conscientização no fortalecimento da imagem positiva do setor.
Filipe Rodrigues, presidente da Jogo Positivo, apontou como a legislação atual não prioriza o tema.
“O governo brasileiro criou toda a regulamentação, incluindo a lei 14.790, bem como as mais 12 portarias, numa ótica financeira, numa ótica de levantamento de recursos. A ótica criada não foi voltada para a saúde pública, o eixo central não é a saúde pública, não é a proteção do apostador. Haja vista que, como comentamos ontem, o Ministério do Turismo recebe 28% junto com a Embratur, o Ministério do Esporte recebe 22% dos recursos voltados, o Ministério da Saúde recebe 1%. Certamente a pasta não teve protagonismo político”, disse.
Filipe também destacou como os operadores devem enxergar a proteção aos apostadores dentro das empresas.
“Eu sinto que faltam as duas coisas. Primeiro, na regulamentação não está presente a obrigatoriedade da criação de uma diretoria de jogo responsável. Jogo responsável é um tema que fica dentro ou do jurídico ou do compliance, mas esse tema, esse tema de jogo responsável não é prioridade do jurídico, não é prioridade do compliance, é um tema que fica em terceiro, em quarto plano, por lógico, porque tem muitos contratos para serem feitos, tem muito combate à lavagem de dinheiro, então jogo responsável é apequenado dentre as prioridades desses profissionais. Então verdadeiramente só vai ser uma preocupação da alta diretoria de uma empresa quando houver verdadeiramente uma cadeira de jogo responsável dentro dessas empresas. Nenhuma bet tem ainda essa preocupação, por isso que nenhuma bet é. Tem feito um programa avançado, ao meu ver, com data vênia, nenhuma bet tem feito um programa avançado de jogo responsável. Todos os programas, ao meu ver, eles são medianos”, falou.
Ele ainda informou como a análise de dados podem contribuir para as empresas desenvolverem políticas de jogo responsável.
“Sem uma certificação séria aferir-se realmente à responsabilidade da operadora, essa questão se torna apenas para inglês ver. Como que se faz isso? Principalmente por KPIs (Key Performance Indicator – Indicadores de Performance). Você precisa realmente ter diversos KPIs para demonstrar que aquela certificação é séria. Então, eu acho que é um caminho, o jogo responsável, ele é um caminho, ele ainda é visto como custo, não é visto como investimento, isso não acontece somente no Brasil. Essa é uma discussão que o jogo responsável deixa de ser lá no início, no meados da década de 90, uma estratégia de marketing para evoluir como um princípio da indústria. Hoje o jogo responsável é um princípio que perpassa toda a indústria, que é transversal”, ressaltou
Fellipe Fraga, CBO da EstrelaBet, destacou o papel dos operadores na identificação do jogo problemático.
“A Estrela sempre teve uma postura de tomar um cuidado na comunicação ao cliente dos produtos que são feitos e também no próprio atendimento e sempre com portas muito abertas para contribuir com o setor e com o debate como um todo. Mas, exatamente no caso da Estrela, foi criada uma iniciativa junto com a Universidade FUMEC, onde foi estabelecida uma matriz de risco de jogo responsável, onde nós conseguimos acompanhar o comportamento do cliente como um todo e ele envia sinais de comportamento que geram preocupações. Então, de repente tem uma sequência de rodadas negativas, de repente aumenta muito o volume de apostos, aumenta muito o stake dele e a gente consegue perceber que ele está, como diz o jargão, “buscando ferro”. E a gente começa a receber avisos, mensagem, pop-up, e-mail e dependendo da situação ele é direcionado para dar um acompanhamento com profissionais de psicologia e vão conseguir lidar com esse comportamento dele que é compulsivo, que usa o jogo como um objeto dessa compulsão”, disse.
Ricardo Magri, da EBAC destacou a responsabilidade da indústria sobre a questão da integridade e ludopatia.
“Quem tinha que estar aqui, por exemplo, era o Ministério da Justiça, talvez. Isolando na integridade, por exemplo, essa visão, a nossa indústria, ela provê para o cenário todo o combate à manipulação de resultados, que tem o rótulo de integridade. Tanto os controles preventivos, como os detectivos. Os treinamentos são todos desenhados pelas empresas, provedores de serviços e os operadores. E os sistemas de detecção são muito sofisticados. Na minha opinião, impossíveis de ser montados por outras entidades, e são feitos por quem tem o trading dos operadores na mão. E essas fenômenos são oferecidas pela nossa indústria para quem combate o crime, mas o jogador que se corrompeu, o bandido que foi lá oferecer para ir a uma aposta, aqueles dois são criminosos. É uma questão de índole pessoal do jogador e de índole pessoal do apostador. E pessoal do criminoso que propôs. A nossa indústria acaba sendo vítima e acaba contribuindo, mas não é uma questão inteira nossa”, disse.
Macri ainda destacou como a questão da ludopatia é ponto central do setor.
Eu vi a integridade ser tratada e essas questões de que a indústria tem que ter um percentual para série C e D, porque o jogador ganha mal e tem que complementar a renda, senão ele vai se corromper. Não tem nada a ver com a nossa indústria, o fato dele ganhar mal. Pelo contrário, eu acho até que ele ganha um pouco melhor por causa da nossa indústria com a questão dos patrocínios. Eu quero dizer com isso, se você isolar na essência esse comentário, se não existir a nossa indústria e não mudar um repasse de componente de renda, ele está liberado para cometer crime só porque ele ganha mal? Ou seja, os outros temas são temas do nosso cenário, mas não é responsabilidade, usando o termo responsabilidade da nossa indústria. O jogo responsável do combate à ludopatia é uma questão que nasce dentro da nossa operação e é uma questão do operador, principalmente”, destacou.
Cristiano Costa, da EBAC, destacou como a atenção à saúde mental é importante para o debate sobre a responsabilidade das empresas.
“A responsabilidade empresarial, social, empresarial que a indústria da bet está sendo submetida, eu quero dizer com toda a clareza que eu acho incrível, válida, necessária essa política. Foi uma alegria muito grande, porque eu que sou um professor da saúde mental, eu sei o desprezo histórico e estrutural, como o Filipe analisou, que as políticas públicas de saúde no Brasil enfrentam. Então no meu entendimento, eu sempre defini isso com muita clareza, o advento das pets, que inclusive coincide com o advento de um grande fortalecimento do interesse das pessoas em saúde mental, porque é sério, até 2019, falar em saúde mental era algo que era provocado a ser um tipo de desconfiança. Mas, depois de 2019, que é um período que inclusive coincide com esse período de fortalecimento das bets, nós temos assim uma grande valorização da própria saúde mental enquanto algo que deve ser cultivado, fortalecido, valorizado e percebido pelas pessoas. Mas é o que acontece, evidentemente a obrigatoriedade dentro de um contexto de compliance, de responsabilidade social, é apenas o início da conversa, porque todos nós sabemos que as empresas que já usam o módulo, que são subjetivas a processos de auditoria, de verificação de conformidade, elas não apenas precisam atender aquelas exigências, como em especial elas precisam entender quais são os princípios que estão figurando naquelas diretrizes e em especial superar aquilo que está sendo colocado pelo regulador. Então, a despeito de todo respeito, de todo interesse que nós aqui na indústria estamos demonstrando, eu tenho plena certeza de que ainda estamos sendo tímidos e pouco proativos naquilo que envolve a nossa comunicação direta com o apostador. Não é hora de ficar com timidez, é hora de dizer, chegamos aqui”, destacou.
Mauricio Lima, Oddin.gg, lembrou os desafios do tema nos Esports, que atraem muitos jovens e menores de idade.
“Assim, tem o esporte tradicional, que a gente tem futebol, volêi, basquete, todos os esportes. O esporte eletrônico, ele também tem diversas modalidades. Não tão conhecidos por todos aqui, mas a gente tem o Counter-Strike, que é um jogo que tem mais de 20 anos. A gente tem jogos lá da Riot Games, que é o League of Legends. A gente tem o Valorant. São jogos talvez não tão conhecidos por todos, mas provavelmente quem tem filho aí já sentiu na pele aí os vendo jogando e participando de campeonatos. Então, e aí quando você pegar uma parte demográfica dessa audiência, primeiramente os torneios que acontecem dessas modalidades, eles são só permitidos para maiores de 18 anos. Eu acompanho esse mercado de esportes desde 2000, são mais de 20 anos de mercado de esportes e é um público que consome, é um público que já tem um poder efetivo, já é um público ativo financeiramente, não são mais crianças, só que em 40 anos a gente não é mais considerado e a gente tem uma camada de cada jogo, tem uma sua audiência, então o Counter Strike, no caso, é um público um pouco mais adulto, de 28 a 35, 39, 40 anos de idade a gente tem o League of Legends que é de 20 a 24, a 28 anos de idade e aí o que eu conecto um pouco com essa questão, nessa nova geração é uma preocupação que eu tenho em relação ao equipe esportes que está ali, ele está crescendo, ele já representa para alguns dos operadores. Já segundo, terceiro, ou até, às vezes, quinto, a posição do número de faturamento. Então, você tem um número de pessoas que vão entrar na plataforma e vão consumir os conteúdos de lá na plataforma do operador”, disse.
Maurício ainda o papel das empresas para tratar a questão com os adeptos dos jogos eletrônicos.
“Como é o público com ESG, ou educação, como que a gente prepara esses jovens que têm um comportamento totalmente diferente do público de futebol, como que a gente prepara, como que a gente cria, talvez, conteúdos educacionais, ou como que a gente faz a publicidade, como que a gente prepara esses jovens para que eles não tenham o problema de ludopatia no futuro. É um desafio que é diferente, é um desafio que vai ser crescente. Esse público, ele vai crescer, ele vai envelhecer”, afirmou.
Thiago Iusim, CEO da Betshield, apresentou o conceito de “licença social” e que a indústria não pode tratar o apostador como um “rodapé”.
“Eu gosto desse conceito de licença social, escrevia, partilha, PNL, porque é uma indústria que, embora tenha sido regulamentada, ela precisa lutar diariamente para ser legitimada pela sociedade. E essa é uma luta diária que a única unidade de troca, no meu ponto de vista, é o jogador responsável. O jogador responsável não é um rodapé, um comercial de bet, dizendo que eu joguei com moderação. Eu trabalhei muitos anos na indústria de cerveja, centenas e centenas de comerciais de escola se beberam e dirijam. Eu sei exatamente que isso não resolve a dor de quem tem a propensão pelo comportamento compulsivo. Justamente para ajudar esses apostadores a serem identificados e tomarem melhores decisões sobre os seus atos enquanto apostadores, fazendo um monitoramento coletivo e ajudando os operadores a terem uma credibilidade maior Então, o jogo responsável não é um tratamento, ele tem que ser um valor institucional de todo operador“, disse.
Durante o painel, os participantes reforçaram que o avanço da regulamentação no Brasil traz a oportunidade de construir um ecossistema de apostas mais ético, sustentável e socialmente responsável, em linha com padrões internacionais de boas práticas.