casas de apostas online

Para CEO de investimentos de banco francês, bets são ‘bicheiro no bolso’ e levam à ‘infelicidade’

  • Última modificação do post:2 de abril de 2025
  • Tempo de leitura:5 minutos de leitura

O professor de finanças comportamentais e gestão de ativos, Aquiles Mosca, criticou atuação de bets no país

O crescimento das apostas esportivas online no Brasil — conhecidas como bets — vem despertando a atenção não apenas de reguladores e operadores do mercado, mas também de gestores do setor financeiro. Em artigo publicado no Valor Econômico, o CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil, Aquiles Mosca, que também é diretor da Anbima e professor de finanças comportamentais, fez duras críticas ao impacto das apostas digitais sobre o bem-estar da população e o equilíbrio financeiro do país.

“A recente expansão das apostas esportivas pode, ironicamente, levar a menos felicidade”, afirmou. Mosca comparou o atual cenário das bets a uma versão digital do jogo do bicho. “As bets são o bicheiro que mora no seu bolso“, disse.

Segundo o artigo, dados do Ministério da Fazenda indicam que em 2024, essas plataformas “drenaram” R$ 216 bilhões dos bolsos da população brasileira, um valor 3,6 vezes maior que o total captado pela indústria de fundos de investimento no mesmo período, que foi de R$ 60,7 bilhões. “Em um país com uma das menores taxas de poupança do mundo, esse descompasso é preocupante”, apontou Mosca.

O Brasil ocupa atualmente o 1º lugar mundial em volume financeiro de apostas online. Antes, o brasileiro apostava presencialmente em lotéricas na loteria esportiva semanal. Hoje, com o avanço dos aplicativos, o número de apostas superou todos os registros históricos.

Apostas em alta, bem-estar em queda

Com base em estudos da psicologia comportamental e da economia, Mosca alerta que quanto mais as pessoas apostam, mais diluída fica a sensação de prazer nas vitórias, e mais acentuados se tornam os impactos sociais e financeiros.

O CEO citou a teoria da perspectiva, de Kahneman e Tversky (1979), para explicar como os ganhos em sequência tendem a gerar menos prazer. “Se um jogador ganha R$10 em 10 apostas separadas, ele experimentará mais felicidade total se cada vitória ocorrer em dias diferentes do que se acontecerem todas na mesma tarde“, falou.

Segundo ele, as bets incentivam apostas rápidas e contínuas, o que compromete o prazer psicológico da vitória e acentua o comportamento compulsivo. Pesquisa da Fecomercio-SP de 2024 mostrou que 70% dos apostadores já sabem que perderão ou, no melhor dos casos, ficarão no zero a zero.

Anonimato

Outro ponto levantado pelo CEO da BNP Paribas é o fator privacidade. Mosca afirmou que, ao apostar pelo celular, o usuário se sente menos exposto socialmente e mais propenso a arriscar.

“Na psicologia está bem estabelecido que não sentir-se responsável diante de outras pessoas aumenta a probabilidade de comportamentos prejudiciais”, disse, citando um experimento clássico com crianças (Diener et al., 1976), no qual a omissão do nome incentivava comportamentos indesejados. “Quanto mais as pessoas se sentem invisíveis, mais provável é que façam apostas questionáveis“, completou.

Publicidade

Mosca também questiona o bombardeio de anúncios publicitários sobre apostas esportivas, que cria um efeito de normalização. “A publicidade transmite normas sociais percebidas como desejáveis. Como ela está em todo lugar, transmite a ideia de que todo mundo está fazendo isso, o que incentiva mais apostas”, explicou.

O professor lembrou que estudos em psicologia social demonstram que, em situações ambíguas, os indivíduos tendem a seguir comportamentos alheios como sendo a “coisa certa a fazer” (Asch, 1956; Latane & Darley, 1969).

Por isso, defendeu que a regulação e restrição da publicidade seja parte central na contenção da proliferação das bets e de seus impactos econômicos e sociais.

‘Menos felicidade’

Apesar de reconhecer que o jogo não é inerentemente mau e pode aliviar o estresse, Mosca foi taxativo ao concluir que a atividade pode levar a uma piora na qualidade de vida.

“Estudos indicam que, à medida que as pessoas apostam mais, elas experimentam resultados sociais, financeiros e de bem-estar piores (Muggleton et al., 2021). O tempo dirá como a proliferação das bets afeta os milhões de usuários. A literatura psicológica fornece algumas indicações sobre o que pode estar por vir. Já se sabe, no entanto, que menos felicidade geral e maior precariedade financeira pessoal é uma aposta certa“, concluiu.

2 Visualizações totais - 1 Visualizações hoje